Para o empresário Wander Aguilera Almeida, a valorização do real precisa ser analisada além do impacto imediato sobre as exportações. Quando o dólar recua, a receita convertida para reais tende a diminuir, mas a mesma movimentação pode reduzir o custo de insumos e outros produtos vinculados à moeda americana. Para o produtor, portanto, o câmbio pode representar efeitos diferentes dentro da mesma safra, dependendo do momento e do tipo de operação.
Acompanhar essas oscilações antes de fechar contratos permite avaliar melhor tanto as condições de venda quanto as oportunidades de compra, ajudando a proteger a margem da produção.
O que está por trás da valorização do real?
A cotação do dólar responde a uma combinação de fatores, e os juros estão entre os mais relevantes. Quando o Brasil oferece retornos elevados em aplicações financeiras, o mercado pode atrair recursos estrangeiros, aumentando a procura por ativos denominados em reais e contribuindo para a valorização da moeda brasileira.
Esse movimento também depende do cenário internacional, segundo aponta Wander Aguilera Almeida. Mudanças na política monetária dos Estados Unidos, nas expectativas para os juros americanos e na percepção de risco dos investidores alteram o fluxo de capital entre diferentes países.
Para quem trabalha com mercadorias agrícolas, o ponto importante é que uma decisão tomada no mercado financeiro pode chegar rapidamente à comercialização da safra. O câmbio não precisa ter origem no agronegócio para modificar o resultado de uma venda de soja ou milho no mercado externo.
Dólar baixo reduz a receita da exportação
Como as principais mercadorias agrícolas são negociadas internacionalmente em dólar, a conversão para reais influencia diretamente o valor recebido pelo produtor. Se a cotação internacional da soja permanecer estável, mas o dólar recuar, a mesma quantidade de produto pode representar uma receita menor quando convertida para a moeda brasileira.
Imagine duas operações com preço internacional semelhante. Se uma delas for fechada com o dólar mais alto, o valor recebido em reais será maior. A diferença não está necessariamente no preço da mercadoria, mas na taxa utilizada para transformar a receita da exportação.
É nesse ponto que o acompanhamento do mercado ganha importância. Wander Aguilera Almeida considera que olhar apenas para a cotação da soja pode deixar de fora uma variável relevante da formação da receita, especialmente em períodos de maior oscilação cambial.

Os prêmios de exportação também entram nessa conta. Eles representam valores pagos acima ou abaixo da referência internacional e variam conforme fatores como oferta, demanda, localização e interesse dos compradores. Quando o câmbio fica menos favorável ao exportador, uma combinação de dólar mais baixo e prêmio reduzido pode pressionar ainda mais a remuneração da produção.
Onde o dólar mais baixo pode ajudar?
O efeito cambial não se limita ao lado da receita. O produtor também pode se beneficiar quando precisa comprar produtos cujo preço é influenciado pelo mercado internacional. Fertilizantes são um exemplo importante. O Brasil possui elevada dependência das importações para atender à demanda interna por nutrientes agrícolas. Quando o real está valorizado, o custo de aquisição desses produtos pode diminuir em reais, dependendo das condições internacionais de preço, frete e negociação.
A mesma lógica pode aparecer em outros itens ligados à produção rural que tenham componentes importados ou preços influenciados pela moeda americana. Nesse caso, o dólar mais baixo funciona como uma compensação parcial para a redução da receita obtida com a exportação.
Na leitura de Wander Aguilera Almeida, essa relação ajuda a explicar por que o câmbio precisa ser analisado pelos dois lados da operação. Uma moeda brasileira mais valorizada pode prejudicar uma venda futura em dólar, mas também melhorar as condições para determinados custos da propriedade.
O momento da compra também faz diferença
Nem sempre a melhor decisão está em reagir imediatamente à cotação do dia. O calendário da produção, a necessidade de caixa e o momento previsto para utilização dos insumos precisam entrar na análise.
Um produtor que precisa comprar fertilizante para a próxima safra, de acordo com Wander Aguilera Almeida, pode acompanhar o câmbio como uma das variáveis da negociação. Se houver condições comerciais favoráveis, antecipar parte da aquisição pode reduzir a exposição a uma eventual alta posterior do dólar.
Isso não significa apostar na direção da moeda. O objetivo é relacionar o câmbio ao planejamento financeiro da propriedade, considerando também preços internacionais, disponibilidade do produto, condições de pagamento e necessidade de armazenamento.
Como reduzir a exposição às oscilações cambiais?
Quem possui receitas ou despesas vinculadas ao dólar pode utilizar mecanismos de proteção para diminuir a incerteza sobre o valor futuro da operação. Entre eles estão contratos a termo, NDFs, contratos futuros e swaps cambiais, cada um com características específicas de funcionamento e custos. No NDF, por exemplo, as partes estabelecem uma taxa de câmbio para uma data futura e liquidam financeiramente a diferença em relação à cotação de referência. Desse modo, a ferramenta pode ser utilizada para proteger uma receita de exportação ou uma obrigação financeira vinculada à moeda americana.
