Todo projeto de jogo precisa de um lugar onde as decisões fiquem registradas, e o cofundador de um estúdio de games, Murilo Moura Alencar, frisa que esse lugar costuma ser o documento de game design, conhecido pela sigla GDD. Durante muito tempo, ele foi associado a calhamaços de centenas de páginas, escritos antes do início da produção e raramente lidos depois.
Estúdios de diferentes tamanhos passaram a tratar o documento de outra forma: mais curto, mais visual e atualizado ao longo do projeto. A seguir, quatro passos para construir um GDD que a equipe realmente use.
Comece pelo essencial em uma página
Em uma palestra na Game Developers Conference de 2010, o designer Stone Librande apresentou a ideia de documentos de design de uma única página. A proposta era condensar a visão do jogo, a mecânica central e as principais regras num formato visual, que pudesse ser pendurado na parede e entendido em poucos minutos.
O exercício, conforme demonstra Murilo Alencar, obriga a equipe a responder perguntas fundamentais: o que o jogador faz na maior parte do tempo, qual é o objetivo, o que torna o jogo diferente e qual sensação ele deve provocar. Se essas respostas não cabem numa página, provavelmente ainda não estão claras o suficiente para guiar a produção.
Detalhe por sistemas, não por capítulos
Depois da visão geral, cada sistema do jogo ganha sua própria seção: controles, progressão, economia, inimigos, interface. Essa organização permite que cada pessoa encontre rapidamente o que precisa, sem ler o documento inteiro.
Murilo Alencar ressalta que cada seção deve explicar não apenas como o sistema funciona, mas por que ele foi desenhado daquela forma. Registrar a intenção por trás de cada decisão ajuda a equipe a fazer escolhas coerentes quando surgirem situações que o documento não previu. Também evita que boas decisões sejam desfeitas meses depois por alguém que desconhecia o motivo original.
Use imagens, tabelas e protótipos
Texto corrido raramente é a melhor forma de explicar um jogo. Esboços de fases, fluxogramas de menus, tabelas com valores de dano e vídeos curtos de protótipos comunicam ideias com mais precisão e em menos tempo.
Valores numéricos, como velocidade do personagem ou custo de itens, funcionam melhor em planilhas vinculadas ao documento, porque mudam com frequência durante os testes. Manter esses números em um único lugar evita que diferentes partes da equipe trabalhem com versões contraditórias. Links diretos para builds jogáveis ajudam ainda mais, porque nenhuma descrição substitui a experiência de experimentar a mecânica.
Trate o documento como algo vivo
Um GDD escrito no início e nunca mais atualizado se torna rapidamente uma descrição de um jogo que não existe mais. Testes com jogadores, limitações técnicas e novas ideias mudam o projeto o tempo todo, e o documento precisa acompanhar.
Murilo Moura Alencar aponta que vale definir quem é responsável por cada seção e criar o hábito de atualizar o documento sempre que uma decisão importante for tomada. Um histórico simples de mudanças, com data e motivo, ajuda quem entra no projeto depois a entender como o jogo chegou à forma atual.
Documentar é pensar com clareza
O documento de game design, em síntese, não existe para burocratizar a criação. Murilo Moura Alencar comenta que, na realidade, seu valor está em obrigar a equipe a explicitar ideias, revelar contradições cedo e manter todos alinhados em torno da mesma visão, mesmo quando o projeto muda de rumo.
Para estúdios pequenos, em que poucas pessoas acumulam muitas funções, essa clareza é ainda mais importante. Um documento enxuto, visual e atualizado economiza discussões repetidas, reduz retrabalho e permite que a energia criativa da equipe seja gasta no jogo, e não em tentar lembrar o que já tinha sido decidido.
