A cada segundo, o equivalente a um caminhão de roupas é descartado ou incinerado em algum lugar do mundo. A indústria têxtil é hoje um dos maiores geradores de resíduos sólidos do planeta, e o Brasil, terceiro maior produtor mundial de vestuário, carrega uma parcela expressiva desse passivo. Diante disso, Marcello José Abbud, referência em tecnologias inovadoras para tratamento de resíduos sólidos urbanos e diretor da Ecodust Ambiental, acompanha um debate que finalmente começa a ganhar escala, mas que ainda está longe de produzir as mudanças necessárias no volume e na velocidade exigidos pela crise.
O modelo dominante da indústria da moda nas últimas décadas, baseado em coleções rápidas, baixo custo e obsolescência programada, gerou um volume de descarte que os sistemas convencionais de gestão de resíduos simplesmente não foram projetados para absorver. Roupas são compostas por misturas complexas de fibras naturais, sintéticas e químicos de acabamento que dificultam enormemente a reciclagem e aceleram a contaminação quando descartadas em aterros.
O que acontece com as roupas que descartamos?
A maior parte das peças descartadas no Brasil segue para aterros sanitários ou lixões, onde fibras sintéticas como poliéster e nylon podem levar mais de 200 anos para se decompor. Nesse sentido, segundo Marcello José Abbud, durante esse processo, liberam microplásticos que contaminam o solo e o lençol freático. As peças incineradas de forma irregular liberam compostos tóxicos, incluindo dioxinas e furanos, especialmente quando contêm tingimentos sintéticos.
Uma fração pequena é doada ou vendida em brechós, mercados de segunda mão e plataformas digitais de revenda. Esse segmento cresceu significativamente nos últimos anos, impulsionado sobretudo por consumidores mais jovens e conscientes, mas ainda representa uma parcela marginal do volume total gerado.
A reciclagem têxtil: por que é tão difícil?
Reciclar tecidos é tecnicamente muito mais complexo do que reciclar papel, vidro ou metal. Isso porque peças compostas por mais de um tipo de fibra precisam ser separadas quimicamente antes de qualquer reprocessamento, o que eleva os custos a níveis que raramente são competitivos com a produção de matéria-prima virgem. Além disso, a qualidade da fibra reciclada tende a ser inferior à original, o que limita sua aplicação industrial.

Há avanços tecnológicos promissores nessa área, com empresas desenvolvendo processos de separação química e reciclagem de fibra a fibra, mas a maioria ainda opera em escala piloto, sem a capacidade necessária para processar o volume gerado globalmente.
Regulação e responsabilidade do produtor
A União Europeia já aprovou uma legislação que obriga as marcas têxteis a assumir responsabilidade pelo ciclo de vida de seus produtos, incluindo o descarte. Na prática, o Brasil ainda não tem um marco regulatório equivalente para o setor têxtil, embora a Política Nacional de Resíduos Sólidos ofereça a base legal para que isso avance. Dessa forma, a ausência de regulação específica mantém o setor numa zona de conforto que adia investimentos necessários em infraestrutura de coleta e tratamento de resíduos têxteis.
Marcello José Abbud e equipes especializadas, como a da Ecodust Ambiental, têm contribuído para o desenvolvimento de soluções de destinação adequada para resíduos têxteis industriais, um segmento que gera volumes expressivos de sobras de corte e materiais fora de especificação que raramente recebem tratamento adequado.
O que muda quando o consumidor começa a pressionar?
Marcello José Abbud analisa que a crescente consciência ambiental de consumidores jovens tem gerado pressão real sobre marcas globais, que respondem com compromissos de sustentabilidade, programas de devolução de roupas usadas e metas de uso de materiais reciclados. Esses movimentos ainda são insuficientes diante da escala do problema, mas indicam que a indústria começa a perceber que o lixo têxtil vai custar caro, seja em regulação, seja em reputação.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
