Levantamento do Instituto de Segurança Pública mostra que metade dos casos na capital ocorre numa fração mínima do território urbano.
Quem mora no Rio de Janeiro sabe que existem ruas, bairros e regiões em que o medo de ser assaltado ou ter o carro roubado é mais presente do que em outros pontos da cidade. Um levantamento divulgado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) nesta terça-feira, 23 de junho, confirma essa percepção com números: metade de todos os roubos e furtos de veículos registrados na capital fluminense está concentrada em apenas 4,3% da área urbana. O dado integra o estudo “Roubo e recuperação de veículos: padrões de criminalidade no estado do Rio de Janeiro” e ajuda a entender por que certas regiões da cidade aparecem com tanta frequência nas estatísticas de criminalidade patrimonial.
A pesquisa também revela um dado que chama atenção em todo o estado. Cerca de 80% dos veículos roubados ou furtados no Rio de Janeiro em 2025 foram recuperados em apenas cinco municípios: a capital, Duque de Caxias, São Gonçalo, Belford Roxo e São João de Meriti. Essa concentração geográfica não é aleatória. Segundo o ISP, a maior parte das recuperações ocorre em áreas do interior dos municípios ou em regiões próximas a territórios sob influência de organizações criminosas, o que sugere que o destino dos veículos roubados segue rotas conhecidas e, em muitos casos, controladas pelo crime organizado.
Para quem se pergunta como esses números afetam o dia a dia e o que pode ser feito para reduzir o risco de ser vítima desse tipo de crime, o estudo do ISP oferece pistas importantes sobre os padrões territoriais da criminalidade e a velocidade de resposta das autoridades.
Por que o roubo de veículos se concentra em áreas tão específicas
A explicação para essa concentração territorial passa pela lógica do mercado ilegal que sustenta o roubo e o furto de veículos. De acordo com o ISP, esses crimes figuram entre os delitos patrimoniais de maior incidência no estado e produzem impactos que vão muito além da perda material sofrida pela vítima. Eles alimentam mercados ilícitos de peças, documentos falsificados e, em alguns casos, financiam outras dinâmicas criminais ligadas a facções que atuam em determinados territórios.
Na capital, essa lógica explica por que 50% dos casos se concentram em apenas 4,3% da área urbana. Já em outros municípios da Região Metropolitana, os números variam bastante: em Duque de Caxias, a metade dos casos ocorre em apenas 2,6% do território. Em São João de Meriti, esse percentual sobe para 12%, enquanto em São Gonçalo fica em 5,2% e em Nova Iguaçu chega a 3%. Essa variação indica que cada município tem sua própria dinâmica territorial de criminalidade, moldada por fatores como densidade populacional, presença de grupos criminosos e características viárias da região.
Outro ponto destacado pelo estudo é que os deslocamentos dos veículos roubados seguem, em muitos casos, trajetórias que parecem planejadas ou induzidas dentro de territórios específicos. Isso significa que o carro ou a moto não desaparece de forma imprevisível depois do roubo, mas segue um caminho que costuma levar a áreas de receptação já mapeadas pelas forças de segurança. Esse padrão de deslocamento é um dos motivos pelos quais a recuperação dos veículos, quando ocorre, costuma acontecer dentro de um intervalo de tempo relativamente previsível, conforme detalha o próprio levantamento do instituto.
O que os números revelam sobre a velocidade de recuperação dos veículos
Um aspecto que pode trazer algum alívio para quem já passou pela experiência de ter um veículo roubado é a velocidade com que boa parte dos casos é resolvida. Segundo o estudo do ISP, 95,4% dos carros roubados ou furtados no estado são recuperados em até 72 horas. Esse percentual cai para 64,4% quando o veículo é uma motocicleta, o que indica uma diferença relevante entre os dois tipos de veículo na forma como o crime se desenrola depois da subtração.
Essa diferença pode estar relacionada à própria natureza dos veículos. Motocicletas são mais fáceis de ocultar, transportar e desmontar para revenda de peças, o que pode explicar por que uma parcela maior delas não é recuperada no mesmo intervalo de tempo observado para os automóveis. Já os carros, por serem maiores e mais difíceis de movimentar sem chamar atenção, tendem a ser localizados com mais rapidez pelas equipes de segurança, especialmente quando equipados com sistemas de rastreamento.
O levantamento também mostra que a comunicação dos crimes às autoridades acontece de forma relativamente rápida. De acordo com a Agência Brasil, 92,2% dos automóveis e 91,8% das motocicletas roubados ou furtados são registrados pelas vítimas em até três dias após o ocorrido. Essa rapidez no registro é um fator importante para as investigações, já que informações mais recentes tendem a facilitar o rastreamento do veículo e o mapeamento das rotas utilizadas pelos criminosos. Para o cidadão, esse dado reforça a importância de buscar uma delegacia ou registrar o boletim de ocorrência online o quanto antes, já que o tempo de resposta influencia diretamente as chances de recuperação.
O que o estudo do ISP significa para a segurança pública no Rio
Os dados divulgados pelo Instituto de Segurança Pública vão além de uma simples fotografia da criminalidade patrimonial no estado. Eles oferecem uma ferramenta concreta para o planejamento de políticas públicas de segurança, já que identificam com precisão onde os crimes se concentram e como os veículos se movimentam depois do roubo. Essa informação pode orientar o direcionamento de policiamento, a instalação de câmeras de monitoramento e até a definição de rotas prioritárias de fiscalização em pontos estratégicos da cidade e da Região Metropolitana.
Para o morador do Rio de Janeiro, entender esses padrões pode ajudar na adoção de medidas preventivas, como evitar deixar o veículo estacionado por longos períodos em vias identificadas como críticas, optar por instalar sistemas de rastreamento e redobrar a atenção em horários de maior incidência de ocorrências. Embora o estudo não substitua a responsabilidade do poder público em garantir segurança, ele fornece um panorama que pode ajudar o cidadão a tomar decisões mais informadas no cotidiano.
Fontes consultadas: Diário do Rio de Janeiro (https://diariodorio.com/cinco-municipios-do-rj-concentram-mais-de-80-dos-veiculos-roubados-e-recuperados-no-estado) e Agência Brasil (https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2026-06/rio-maioria-dos-carros-roubados-esta-em-areas-controladas-pelo-crime).
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
